CIDADE DE SILVEIRAS PROVÍNCIA DE SÃO PAULO - DO LIVRO “PEREGRINAÇÃO PELA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO (1860-1861)
Nem tôdas as estradas de S. Paulo, é força dizê-lo, são melhores do que
as da maior parte da província do Rio de Janeiro. O mal vem de longe a
parecer incurável! As quatro léguas que levam de Queluz a Silveiras são
uma prova do que digo, pois gastei, em bons animais, para transpô-las,
nada menos do que seis horas e meia!
Morros descomunais e sem número, caminhos apertados por picadas cobertas de mato, atoleiros onde os animais se enterram até às orelhas, eis fielmente desenhada qual é a via de comunicação que liga os dois municípios, e que, se não é a melhor, também não e a pior das que convergem neste sentido.
Mais de uma vez, confesso, parei desanimado no meio de uma montanha escabrosa e quase inacessível, em frente de um brejo cujas águas limosas exalavam miasmas deletérios, ou à borda de um precipício que faria recuar de espanto um inglês ou um veado, que são as duas criaturas que mais gostam de galgar despenhadeiros.
Morros descomunais e sem número, caminhos apertados por picadas cobertas de mato, atoleiros onde os animais se enterram até às orelhas, eis fielmente desenhada qual é a via de comunicação que liga os dois municípios, e que, se não é a melhor, também não e a pior das que convergem neste sentido.
Mais de uma vez, confesso, parei desanimado no meio de uma montanha escabrosa e quase inacessível, em frente de um brejo cujas águas limosas exalavam miasmas deletérios, ou à borda de um precipício que faria recuar de espanto um inglês ou um veado, que são as duas criaturas que mais gostam de galgar despenhadeiros.
Para mal de pecados, como o caminho é todo cheio de voltas e de erradas,
eu e o meu camarada, que entra em todos êstes estudos topográficos como
Pilatos no Credo, viamo-nos obrigados a parar tôdas as vêzes que
enxergávamos alguém que nos pudesse orientar se estávamos ou não
perdidos.
Chegando a uma espécie de vale estreito e agreste, avistamos da colina,
cuja senda seguíamos, um homem já idoso, com figura de sátiro, estirado
ao comprido sôbre um monte de tábuas, observando o trabalho de alguns
carapinas que o rodeavam debaixo de um telheiro. Dirigi-lhe naturalmente
a palavra, e perguntei-lhe se aquêle era o caminho de Silveiras.
O velho Sileno, dando à fisionomia a expressão de uma caricatura de
castão de bengala, desfechou-se, em resposta, uma furiosa gargalhada!
Asseguro que me desapontou o destempêro desta amabilidade cínica, e me
julguei por um momento em algum dos recôncavos do inferno, frente a
frente com um lobisomem!
Mas como o lugar não era próprio para um idílio bucólico, entendi que o
mais acertado seria não procurar a decifração da charada do Bertoldo
selvagem, e seguir o meu caminho, resolvido a fazer todos os esforços
para nunca mais passar por semelhante sítio.
A única cousa verdadeiramente poética que encontrei nesta longa e
espinhosa romaria, são as cruzes que de espaço a espaço bordam as beiras
do caminho, e se levantam tristes e solitárias nas encostas das colinas
ou nas quebradas das montanhas.
Nem sempre êstes símbolos de religião e piedade atestam um homicídio ou
comemoram um crime; muitas delas são filhas da desventura, que foi ali
plantá-las no êrmo como uma esperança consoladora ao viajante perdido,
como a oferenda de uma promessa milagrosamente cumprida, ou como um
estímulo de alento a quem na senda da vida sente o coração
desfalecer-lhe e a crença vacilar.
Quantas vêzes uma cruz, surgindo de repente ante o homem a quem uma ruim
tenção domina, terá no meio do deserto feito nascer de súbito o
arrependimento antecipado de seu crime e a tremenda perspectiva do
remorso que o deve acompanhar, obrigando-o a depor a arma sacrílega e a
mudar de seu atroz desígnio!
É poético realmente e tem um não sei quê de solene e triste passar em
frente dessas cruzes da solidão, madeiros toscos, abrigados em uma
choupana rústica, mas enfeitados com flores e engrinaldados com ramos
viventes pela mão de incógnitos peregrinos a quem a religião ou a
saudade inspirou!
O caminhante tira religiosamente o chapéu diante dêsses símbolos
sagrados, e continua vagarosamente a sua marcha, embedido em refexões,
procurando adivinhar na mente qual seria o infortúnio que ali arvorou
para memoria aquêle anúncio de consolo e de perdão para uns e de remorso
ou de pavor para outros.
É sobretudo neste mês de maio que se costumam enfeitar com flores êstes
singelos monumentos de religião; pois é uso no interior fazerem-se
romarias noturnas a êstes lugares do descampado, onde o povo vem
comemorar a festa da invenção da Santa Cruz.
Cheguei a Silveiras já de noite, e tão cansado me achava, que creio me
seria impossível, caso fizesse ainda claro, descrever a primeira
impressão que me produziu o aspecto desta vila.
Recomendado por alguns amigos ao Sr. capitão Francisco Félix Castro, bem
conhecido pelos importantes serviços prestados ao seu município,
devo-lhe não só a bondosa hospitalidade que recebi em sua casa, como a
complacência de me acompanhar a visitar a povoação e ministrar-me
algumas das informações de que carecia para esta ligeira notícia.
A vila de Silveiras, a quatro léguas de Areias, está edificada em uma e
outra margem da estrada geral de S. Paulo. Fica reclinada em uma
planície um pouco baixa, o que faz com que se não possa gozar a sua
perspectiva senão de qualquer das alturas dos morros que a rodeiam,
especialmente da colina onde está edificada a pitoresca capelinha do
Patrocínio, e donde oferece realmente uma vista deleitosa e agradável.
A vila tem cento e tantas casas regularmente construídas, e muitas
outras cobertas de sapé. Tem algumas ruas e três praças. A primeira é a
da Matriz, cujo edifício é de arquitetura pesada e está agora em
reparos, pois havia chegado a um estado lamentável de ruína.
O govêrno provincial apenas tem fornecido para os reparos dêste tempo a
exígua quantia de 900$000 Rs., excedendo a despesa a mais de 14:000$000
Rs. Os habitantes do lugar solicitam do govêrno geral o adjutório de uma
loteria para conclusão da obra, e é de esperar que lhes seja concedida,
porque nada parece mais justo e razoável, visto que esta povoação é
também uma daquelas que parecem deserdadas da proteção que se lhes deve,
pois tem existido até hoje, e medrado, sem quase receber auxílios dos
cofres da nação!
Mas dos próprios reveses tirando novas fôrças, como é meu habitual
costume, continuei a caminhar, quase sem ter esperança de descobrir a
encantada vila de Silveiras.
A casa da câmara é um edifício de mau
gôsto, de arquitetura singular, e teve uma colocação inconveniente no
centro da praça, a que dá o nome, pois a enfeia e quase inutiliza.
Interiormente é melhor e tem um salão vasto e preparado com decência. A cadeia, estabelecida na parte térrea do edifício, é sofrível quanto ao seu arranjo, mas pouco segura.
A terceira praça é adornada por um pequeno, mas singelo e bonito chafariz, que, se tivesse água, prestaria um bom serviço aos habitantes; mas o povo, que fêz à sua custa esta obra, pede ao govêrno que lhe forneça ao menos o encanamento, e não se sabe ainda como será decidida esta pendência.
O município de Silveiras não é rico, mas a maior parte de seus moradores está remediada.
A sua lavoura principal é o café, e exporta por ano, segundo um cálculo muito aproximado, 150.000 arrôbas. Colhe alguma cana, e os seus gêneros alimentícios, que nos anos anteriores chegavam para exportar, neste não chegam para o consumo local!
Existem na vila duas escolas públicas de instrução primária: uma do sexo masculino, freqüentada por vinte e seis alunos, e outra, do sexo feminino, por poucas educandas.
Além destas, há uma escola de instrução secundária, onde estudam dez alunos, alguns dos quais com muito aproveitamento, e é paga pelos cofres provinciais, que lhe fornecem 800$000 Rs., e a municipalidade, que entra com 400$000!
Raro e louvável exemplo de filantropia dado por uma população em favor de sua mocidade!
O caráter do povo de Silveiras é ameno, progressista, e o seu espírito de fraternidade é digno de louvor e da estima daqueles que o visitam. Os homens de opiniões contrárias vivem nas mais íntimas relações, e só na urna eleitoral é que existe para êles o campo da dissensão.
Entre as pessoas com quem me relacionei aqui, devo notar o Sr. João Henriques de Azevedo e Almeida, digno juiz municipal de Silveiras, tão apreciável pela sua imparcialidade como autoridade e zelo no serviço público, como pelo sue trato franco e polido; bem como o Sr. José Teixeira Leite de Abreu, inteligente fazendeiro, e outros não menos merecedores de serem recordados.
Travei por esta ocasião amizade com o Sr. Vicente Félix de Castro, moço de modesto e aproveitável talento, cujo nome é já vantajosamente conhecido do público pelos seus romances publicados no Correio da Tarde.
É com prazer que faço menção de nossas relações, e oxalá que êste insignificante tributo do meu aprêço pela sua inteligência seja um incentivo eficaz para o animar na carreira que temeroso, mas com tanta esperança, encetou!
Silveiras possui um teatrinho regular, que é propriedade do Sr. capitão Félix de Castro. É uma das úteis distrações do lugar, e aí representam mensalmente alguns curiosos. O seu guarda-roupa é excelente, e todos os pertences estão em muito boa ordem.
Não deve também deixar de notar-se, entre as obras públicas de Silveiras, o espaçoso cemitério da vila, todo murado em roda e fechado por um grande portão. Oxalá que outras povoações maiores e mais prósperas tivessem um cemitério assim!
O comércio, que até agora tem sido muito ativo nesta localidade, está hoje estacionário por falta de recursos pecuniários, para o que muito tem concorrido a escassez das últimas colheitas de café e a dificuldade de obter-se o meio circulante que anima as transações.
Parti de Silveiras para a fazenda do Sr. Agostinho da Fonseca Rodrigues, que fica na estrada de S. Paulo, duas léguas adiante daquela povoação. Esta fazenda é notável por ser uma das que produzem mais abundantes colheitas de café no município, e por uma linda rua que apresenta ao lado da casa, formada por uma ala de majestosos pinheiros. É realmente uma alameda cuja perspectiva encanta.
O dono desta propriedade teve a bondade de acompanhar-me até à freguesia do Sapé, e mostrar-me a capela e alguns estabelecimentos do lugar, que deve a êste cidadão benemérito grande parte do progresso e desenvolvimento que tem tomado ùltimamente. A nova freguesia tem já bastantes moradores, e é de crer que em poucos anos será mais um núcleo de povoação rica de comércio e lavoura.
Pouco adiante desta freguesia cessam os morros e começa a estrada a desdobrar-se pelo centro de vastas planícies; espero, portanto, que já me será menos penosa a viagem que tenho de fazer daqui a Lorena, e para onde parto amanhã.
Interiormente é melhor e tem um salão vasto e preparado com decência. A cadeia, estabelecida na parte térrea do edifício, é sofrível quanto ao seu arranjo, mas pouco segura.
A terceira praça é adornada por um pequeno, mas singelo e bonito chafariz, que, se tivesse água, prestaria um bom serviço aos habitantes; mas o povo, que fêz à sua custa esta obra, pede ao govêrno que lhe forneça ao menos o encanamento, e não se sabe ainda como será decidida esta pendência.
O município de Silveiras não é rico, mas a maior parte de seus moradores está remediada.
A sua lavoura principal é o café, e exporta por ano, segundo um cálculo muito aproximado, 150.000 arrôbas. Colhe alguma cana, e os seus gêneros alimentícios, que nos anos anteriores chegavam para exportar, neste não chegam para o consumo local!
Existem na vila duas escolas públicas de instrução primária: uma do sexo masculino, freqüentada por vinte e seis alunos, e outra, do sexo feminino, por poucas educandas.
Além destas, há uma escola de instrução secundária, onde estudam dez alunos, alguns dos quais com muito aproveitamento, e é paga pelos cofres provinciais, que lhe fornecem 800$000 Rs., e a municipalidade, que entra com 400$000!
Raro e louvável exemplo de filantropia dado por uma população em favor de sua mocidade!
O caráter do povo de Silveiras é ameno, progressista, e o seu espírito de fraternidade é digno de louvor e da estima daqueles que o visitam. Os homens de opiniões contrárias vivem nas mais íntimas relações, e só na urna eleitoral é que existe para êles o campo da dissensão.
Entre as pessoas com quem me relacionei aqui, devo notar o Sr. João Henriques de Azevedo e Almeida, digno juiz municipal de Silveiras, tão apreciável pela sua imparcialidade como autoridade e zelo no serviço público, como pelo sue trato franco e polido; bem como o Sr. José Teixeira Leite de Abreu, inteligente fazendeiro, e outros não menos merecedores de serem recordados.
Travei por esta ocasião amizade com o Sr. Vicente Félix de Castro, moço de modesto e aproveitável talento, cujo nome é já vantajosamente conhecido do público pelos seus romances publicados no Correio da Tarde.
É com prazer que faço menção de nossas relações, e oxalá que êste insignificante tributo do meu aprêço pela sua inteligência seja um incentivo eficaz para o animar na carreira que temeroso, mas com tanta esperança, encetou!
Silveiras possui um teatrinho regular, que é propriedade do Sr. capitão Félix de Castro. É uma das úteis distrações do lugar, e aí representam mensalmente alguns curiosos. O seu guarda-roupa é excelente, e todos os pertences estão em muito boa ordem.
Não deve também deixar de notar-se, entre as obras públicas de Silveiras, o espaçoso cemitério da vila, todo murado em roda e fechado por um grande portão. Oxalá que outras povoações maiores e mais prósperas tivessem um cemitério assim!
O comércio, que até agora tem sido muito ativo nesta localidade, está hoje estacionário por falta de recursos pecuniários, para o que muito tem concorrido a escassez das últimas colheitas de café e a dificuldade de obter-se o meio circulante que anima as transações.
Parti de Silveiras para a fazenda do Sr. Agostinho da Fonseca Rodrigues, que fica na estrada de S. Paulo, duas léguas adiante daquela povoação. Esta fazenda é notável por ser uma das que produzem mais abundantes colheitas de café no município, e por uma linda rua que apresenta ao lado da casa, formada por uma ala de majestosos pinheiros. É realmente uma alameda cuja perspectiva encanta.
O dono desta propriedade teve a bondade de acompanhar-me até à freguesia do Sapé, e mostrar-me a capela e alguns estabelecimentos do lugar, que deve a êste cidadão benemérito grande parte do progresso e desenvolvimento que tem tomado ùltimamente. A nova freguesia tem já bastantes moradores, e é de crer que em poucos anos será mais um núcleo de povoação rica de comércio e lavoura.
Pouco adiante desta freguesia cessam os morros e começa a estrada a desdobrar-se pelo centro de vastas planícies; espero, portanto, que já me será menos penosa a viagem que tenho de fazer daqui a Lorena, e para onde parto amanhã.
Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.
Augusto Emilio Zaluar (Lisboa, 14 de
fevereiro de 1826
– Rio de Janeiro, 3 de abril
de 1882)
foi um escritor, poeta e jornalista. Nascido em Lisboa, emigrou
para o Brasil
em 1850
e naturalizou-se cidadão brasileiro em 1856. Filho do Major José Dias de
Oliveira, Zaluar teve três filhos no Brasil.
Publicou Dores e Flores, em 1851,
na editora de Paula Brito, além de traduzir folhetins
estrangeiros para jornais. Vale destacar o prefácio (cf. CÉSAR, 1971,
p. 294) feito ao livro poético Prelúdios, da gaúcha Julieta de Melo Monteiro, esposa do também
imigrante português Francisco
Guilherme Pinto Monteiro. Conforme O berço do cânone, Zaluar foi
incluído no Lírica Nacional (1862), de
Quintino Bocaiúva. Amigo próximo de Manuel Antônio de Almeida, é dele o
primeiro perfil biográfico do autor das Memórias de um Sargento de Milícias,
logo após o trágico desaparecimento do romancista no naufrágio do Vapor Hermes,
na costa fluminense, em dezembro de 1861. Transcrito no livro Obra Dispersa,
uma coletânea dos textos esparsos de Manuel Antônio de Almeida, o artigo de
Zaluar, publicado pelo Diário do Rio de Janeiro em 05 e 7 de fevereiro
de 1862, é uma vigorosa denúncia das causas políticas e ideológicas que levaram
à marginalização, tanto no jornalismo quanto no serviço público, do pioneiro do
romance brasileiro, um abolicionista e republicano radical no auge do Segundo
Reinado, da elite agrária e do trabalho escravo. Trabalhou como
jornalista no jornal O Globo, escrevendo várias matérias sobre a Exposição Nacional
de 1875. Também foi o autor da primeira obra de ficção científica do Brasil, O Doutor
Benignus.


